Lula prometeu picanha e cerveja. Quatro anos depois, quanto custa colocar carne na mesa do brasileiro?
A picanha ficou 25,7% mais cara em termos reais no atacado entre janeiro de 2023 e junho de 2026. Mas os números também revelam queda inicial de preços, recuperação da renda e aumento do consumo de carne bovina. Afinal, o que aconteceu com uma das promessas mais famosas de Lula?

Durante a campanha presidencial de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva transformou a picanha em um dos símbolos de sua candidatura. Em meio à inflação dos alimentos e à perda do poder de compra dos brasileiros, o então candidato prometia recuperar as condições econômicas para que as famílias voltassem a fazer churrasco nos fins de semana.
Em agosto de 2022, durante entrevista ao Jornal Nacional, Lula defendeu que o povo deveria voltar a comer picanha e tomar cerveja.
A frase se popularizou. A picanha deixou de ser apenas um corte de carne e passou a representar a promessa de uma vida melhor.
Quatro anos depois, com o terceiro mandato chegando ao fim, surge uma pergunta: o brasileiro realmente passou a ter mais condições de comprar a picanha prometida?
O que Lula realmente prometeu?
É importante recuperar a declaração original para não confundir discurso político com um compromisso literal de distribuir carne à população.
Em outubro de 2022, durante entrevista ao podcast Desce a Letra Show, Lula esclareceu que sua proposta era recuperar a economia para permitir que os brasileiros voltassem a realizar atividades simples de lazer, como reunir a família para um churrasco.
Portanto, a promessa estava ligada principalmente à recuperação do poder de compra, à geração de empregos e à melhoria da renda.
E é exatamente por esses indicadores que ela precisa ser examinada.
A picanha ficou 25,7% mais cara no atacado
Um levantamento da consultoria Safras & Mercado, divulgado pela CNN Brasil em julho de 2026, revelou que o preço da picanha no atacado passou do equivalente a R$ 57,56 por quilo, em janeiro de 2023, para R$ 72,38 em junho de 2026.
Os valores foram ajustados pela inflação oficial, medida pelo IPCA.
Isso representa uma alta real de 25,7%, ou seja, acima da inflação geral.
A evolução dos preços
Indicador | Valor |
|---|---|
Janeiro de 2023, corrigido pelo IPCA | R$ 57,56/kg |
Junho de 2026 | R$ 72,38/kg |
Aumento real | 25,7% |
Alta nos 12 meses até junho de 2026 | 10,8% |
Esses números se referem ao mercado atacadista. Não representam diretamente o preço pago pelo consumidor no supermercado ou no açougue.
E existe uma diferença importante: o comportamento da picanha no varejo foi outro.
Segundo levantamento do economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, baseado no IPCA do IBGE e divulgado pela Folha de S.Paulo, o preço da picanha ao consumidor acumulou alta nominal de 7,8% entre janeiro de 2023 e agosto de 2026.
Isso significa que não é correto afirmar que a picanha ficou 25,7% mais cara para o consumidor brasileiro. O percentual corresponde a uma pesquisa específica do atacado, ajustada pela inflação.
A picanha ficou mais barata no início do governo
Os dados mostram que o preço da carne não subiu continuamente durante a administração Lula.
Em 2023, houve queda nos preços da picanha. O movimento foi influenciado pelo ciclo pecuário, que aumentou a disponibilidade de animais para abate e ampliou a oferta de carne.
A redução beneficiou consumidores e continuou exercendo influência sobre o mercado em 2024.
Posteriormente, a oferta começou a diminuir e os preços voltaram a subir.
Especialistas do setor destacam que essas oscilações dependem de fatores como o ciclo de produção do gado, a oferta interna, os custos de produção, o câmbio e as exportações.
Por isso, atribuir toda a queda ou toda a alta ao presidente seria uma simplificação econômica.
O governo pode influenciar o ambiente econômico, mas não controla isoladamente o preço da picanha.
E o salário do brasileiro? Aumentou?
O salário mínimo passou de R$ 1.212 em 2022 para R$ 1.621 em 2026, crescimento nominal de aproximadamente 33,7%.
Mas comparar apenas os valores nominais não basta, porque a inflação também reduz o valor do dinheiro.
O IBGE registrou que, no trimestre encerrado em setembro de 2026, o rendimento médio real habitual do trabalho chegou a R$ 3.790, com crescimento de 3,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Além disso, a taxa de desemprego caiu ao longo do período.
Esses indicadores demonstram melhora nas condições de renda e emprego, embora não signifiquem que todas as famílias tenham experimentado o mesmo ganho de poder de compra.
A recuperação da renda conviveu com aumentos de preços em diferentes itens de consumo.
O brasileiro passou a consumir mais carne bovina?
Esse é um dos pontos que precisam entrar na análise.
Segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a disponibilidade interna de carne bovina por habitante apresentou a seguinte evolução:
Ano | Disponibilidade per capita |
|---|---|
2022 | 28,2 kg |
2023 | 31,9 kg |
2024 | 36,0 kg |
2025, estimativa | 34,1 kg |
2026, projeção | 31,6 kg |
Os números mostram uma recuperação importante em 2023 e 2024, seguida de expectativa de recuo em 2025 e 2026.
Entretanto, disponibilidade interna por habitante não equivale ao consumo efetivamente realizado por cada família. O indicador também não demonstra especificamente quanto de picanha foi consumido.
Ainda assim, ele contradiz a ideia de que o acesso à carne bovina tenha piorado continuamente ao longo de todo o mandato.
Por que a carne voltou a subir?
O ciclo pecuário tem grande influência sobre os preços da carne no Brasil.
Quando há maior oferta de animais para abate, a tendência é de redução dos preços, dependendo também da demanda.
Quando os pecuaristas retêm matrizes para reprodução e diminui a quantidade de animais disponíveis, os preços podem subir novamente.
A expansão das exportações também influencia a quantidade de carne destinada ao mercado doméstico.
O resultado é um mercado que pode apresentar oscilações significativas, mesmo sem mudanças diretas na política econômica federal.
Por outro lado, cabe ao governo formular políticas que contribuam para a estabilidade econômica, a renda e a segurança alimentar.
A recuperação do poder de compra foi uma promessa política, e sua evolução continua sendo uma questão legítima de fiscalização.
O que os números demonstram sobre a promessa?
A comparação entre o discurso de 2022 e os dados disponíveis até novembro de 2026 permite identificar quatro acontecimentos.
Primeiro: a picanha realmente ficou mais barata em parte do mandato, especialmente em 2023.
Segundo: os preços voltaram a subir posteriormente, com alta real expressiva no atacado no levantamento divulgado em julho de 2026.
Terceiro: houve crescimento do salário mínimo, recuperação do rendimento real do trabalho e redução do desemprego.
Quarto: a disponibilidade interna de carne bovina aumentou inicialmente, mas as projeções apontavam recuo após o pico de 2024.
Esses resultados mostram que o cenário é mais complexo do que simplesmente declarar que a promessa foi cumprida ou descumprida.
A picanha não virou um produto permanentemente barato. Entretanto, também não é correto ignorar os períodos de redução de preços e a melhora de indicadores econômicos.
A pergunta que permanece
A promessa da picanha ganhou força porque traduziu uma questão econômica complexa em algo que qualquer brasileiro compreende: a possibilidade de reunir a família e colocar uma boa carne na churrasqueira sem comprometer o orçamento.
Passados quase quatro anos, o país registrou avanços na renda e no emprego, mas continuou convivendo com oscilações relevantes no preço dos alimentos.
A discussão que merece ser feita não é apenas quanto custa um quilo de picanha.
É quanto da renda familiar sobra depois de pagar aluguel, transporte, energia, alimentação e demais despesas essenciais.
Porque recuperar o poder de compra não significa apenas ganhar mais. Significa conseguir comprar mais com aquilo que se ganha.
E essa é a pergunta que o Fiscal do Poder deixa ao leitor: a recuperação dos indicadores econômicos foi suficiente para transformar a promessa de 2022 em uma realidade no orçamento das famílias brasileiras?
Fontes verificáveis da reportagem
Abaixo estão os links completos, em texto, para você copiar e colar diretamente no site Fiscal do Poder.
1. CNN Brasil — Picanha 25,7% mais cara no atacado
https://www.cnnbrasil.com.br/agro/ciclo-pecuario-e-menor-oferta-de-gado-elevam-preco-da-picanha/
2. Folha de S.Paulo — Variação do preço da picanha ao consumidor
3. Aos Fatos — Declaração original de Lula sobre a picanha
https://www.aosfatos.org/noticias/montagem-lula-picanha-de-soja/
4. Conab — Perspectivas para a Agropecuária 2025/2026
5. TRT-MG — Evolução oficial do salário mínimo
https://portal.trt3.jus.br/internet/servicos/valores/salario-minimo
6. Agência Gov — Dados do IBGE sobre renda e desemprego em setembro de 2026
Fiscal do Poder — Lula Disse. Mas Fez?
Fiscalizar não é repetir discursos. É comparar declarações, documentos e resultados.
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